11/11/09

Soneto XXXI


Soneto XXXI


Longe de ti, se escuto, porventura,

Teu nome, que uma boca indiferente

Entre outros nomes de mulher murmura,

Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...


Tal aquele, que, mísero, a tortura

Sofre de amargo exílio, e tristemente

A linguagem natal, maviosa e pura,

Ouve falada por estranha gente...


Porque teu nome é para mim o nome

De uma pátria distante e idolatrada,

Cuja saudade ardente me consome:


E ouvi-lo é ver a eterna primavera

E a eterna luz da terra abençoada,

Onde, entre flores, teu amor me espera.
.

Olavo Bilac

10/11/09

O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener - 2005)


Neste primeiro filme em língua inglesa do diretor brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus), Tessa (Rachel Weisz), uma ativista casada com o jovem diplomata britânico de segundo escalão, de promissora carreira, Justin Quayle (Ralph Fiennes) é encontrada assassinada em uma área remota do Quênia. O principal suspeito do crime é seu sócio, o médico negro Arnold Bluhm (Koundé), que encontra-se atualmente desaparecido. Perturbado pelas supostas infidelidades da esposa, Justin decide partir para descobrir o que realmente aconteceu com ela, iniciando uma viagem que o levará por três continentes e mergulhando-o no mundo e nas idéias de Tessa para, enfim, conhecê-la e resgatá-la. O roteiro de Jeffrey Caine é baseado em livro de John Le Carré.



Este excelente filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz), além de ser indicado nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição. Também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz), além de ter sido indicado nas categorias de Melhor Filme - Drama e Melhor Diretor. Ainda ganhou o BAFTA de Melhor Edição, além de ter sido indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Ralph Fiennes), Melhor Atriz (Rachel Weisz), Melhor Filme Britânico, Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Roteiro Adaptado.
Recebeu uma indicação ao Goya de Melhor Filme Europeu e ganhou o Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Filme Estrangeiro.

Minha nota: ****

Site Oficial: www.theconstantgardener.com



"O Jardineiro Fiel é, assim, um filme que se sai admiravelmente bem em diversos campos: é tenso como um bom thriller deve ser; comove como um ótimo drama; e, o mais importante, provoca discussão em função das denúncias que faz e da realidade trágica que retrata. É impossível, depois de assistir a este filme, ignorar o desastre social de um continente cuja população miserável é submetida a todo tipo de abuso: fome, doenças, genocídios promovidos por milícias compostas por psicopatas e, ainda por cima, a exploração sistemática por parte de empresas do primeiro mundo – que ainda se dão ao luxo de racionalizar suas ações com a justificativa doentia de que, de uma forma ou de outra, aquelas pessoas 'morreriam de todo jeito'." (Paulo Villaça)
*

Vencedores do Oscar: Melhor filme


Vencedores do Oscar - de 1928 a 2008
ANO - MELHOR FILME DA ACADEMIA
1928 - Asas [Wings], William Wellman
1929 - Melodia da Broadway [Broadway Melody], Harry Beaumont
1930 - Sem Novidades no Front [All Quiet on the Western Front], Lewis Milestone
1931 - Cimarron [Cimarron], Wesley Ruggles
1932 - Grande Hotel [Grand Hotel], Edmund Goulding
1933 - Cavalgada [Cavalcade], Frank Lloyd
1934 - Aconteceu Naquela Noite [It Happened One Night], Frank Capra
1935 - O Grande Motim [Mutiny on the Bounty], Frank Lloyd
1936 - Ziegfeld, o Criador de Estrelas [The Great Ziegfeld], Robert Z. Leonard
1937 - Émile Zola [The Life of Emile Zola], William Dieterle1938 - Do Mundo Nada se Leva [You Can't Take It with You], Frank Capra
1939 - E o Vento Levou [Gone with the Wind], Victor Fleming
1940 - Rebeca, a Mulher Inesquecível [Rebecca], Alfred Hitchcock
1941 - Como era Verde o Meu Vale [How Green Was My Valley], John Ford
1942 - Rosa da Esperança [Mrs. Miniver], William Wyler
1943 - Casablanca [Casablanca], Michael Curtiz
1944 - O Bom Pastor [Going My Way], Leo McCarey
1945 - Farrapo Humano [The Lost Weekend], Billy Wilder
1946 - Os Melhores Anos de Nossas Vidas [The Best Years of Our Lives], William Wyler
1947 - A Luz é Para Todos [Gentlemen's Agreement], Elia Kazan
1948 - Hamlet [Hamlet], Laurence Olivier
1949 - A Grande Ilusão [All the King's Men], Robert Rossen
1950 - A Malvada [All About Eve], Joseph L. Mankiewicz
1951 - Sinfonia de Paris [An American in Paris], Vincente Minnelli
1952 - O Maior Espetáculo da Terra [Greatest Show on Earth], Cecil B. DeMille
1953 - A um Passo da Eternidade [From Here to Eternity], Fred Zinnemann
1954 - Sindicato de Ladrões [On The Waterfront], Elia Kazan
1955 - Marty [Marty], Delbert Mann
1956 - A Volta ao Mundo em 80 Dias [Around the World in 80 Days], Michael Anderson
1957 - A Ponte do Rio Kwai [The Bridge on the River Kwai], David Lean
1958 - Gigi [Gigi], Vincente Minnelli
1959 - Ben-Hur [Ben-Hur], William Wyler
1960 - Se Meu Apartamento Falasse [The Apartment], Billy Wilder
1961 - Amor, Sublime Amor [West Side Story], Jerome Robbins, Robert Wise
1962 - Lawrence da Arábia [Lawrence of Arabia], David Lean
1963 - As Aventuras de Tom Jones [Tom Jones], Tony Richardson
1964 - Minha Bela Dama [My Fair Lady], George Cukor
1965 - A Noviça Rebelde [The Sound of Music], Robert Wise
1966 - O Homem Que Não Vendeu Sua Alma [A Man for All Seasons], Fred Zinnemann
1967 - No Calor da Noite [In the Heat of the Night], Norman Jewison
1968 - Oliver! [Oliver!], Carol Reed
1969 - Perdidos na Noite [Midnight Cowboy], John Schlesinger
1970 - Patton, Rebelde ou Herói? [Patton], Franklin J. Schaffner
1971 - Operação França [The French Connection], William Friedkin
1972 - O Poderoso Chefão [The Godfather], Francis Ford Coppola
1973 - Golpe de Mestre [The Sting], George Roy Hill
1974 - O Poderoso Chefão - 2ª parte [The Godfather, Part II], Francis Ford Coppola
1975 - Um Estranho no Ninho [One Flew Over the Cuckoo's Nest], Milos Forman
1976 - Rocky, um Lutador [Rocky], John G. Avildsen
1977 - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa [Annie Hall], Woody Allen
1978 - O Franco-atirador [The Deer Hunter], Michael Cimino
1979 - Kramer x Kramer [Kramer vs. Kramer], Robert Benton
1980 - Gente Como a Gente [Ordinary People], Robert Redford
1981 - Carruagens de Fogo [Chariots of Fire], Hugh Hudson
1982 - Gandhi [Gandhi], Richard Attenborough
1983 - Laços de Ternura [Terms of Endearment], James L. Brooks
1984 - Amadeus [Amadeus], Milos Forman
1985 - Entre Dois Amores [Out of Africa], Sydney Pollack
1986 - Platoon [Platoon], Oliver Stone
1987 - O Último Imperador [The Last Emperor], Bernardo Bertolucci
1988 - Rain Man [Rain Man], Barry Levinson
1989 - Conduzindo Miss Daisy [Driving Miss Daisy], Bruce Beresford
1990 - Dança Com Lobos [Dances With Wolves], Kevin Costner
1991 - O Silêncio dos Inocentes [The Silence of the Lambs], Jonathan Demme
1992 - Os Imperdoáveis [Unforgiven], Clint Eastwood
1993 - A Lista de Schindler [Schindler's List], Steven Spielberg
1994 - Forrest Gump, o Contador de Histórias [Forrest Gump], Robert Zemeckis
1995 - Coração Valente [Braveheart], Mel Gibson
1996 - O Paciente Inglês [The English Patient], Anthony Minghella
1997 - Titanic [Titanic], James Cameron
1998 - Shakespeare Apaixonado [Shakespeare in Love], John Madden
1999 - Beleza Americana [American Beauty], Sam Mendes
2000 - Gladiador [Gladiator], Ridley Scott
2001 - Uma Bela Lembrança [A Beautiful Mind], Ron Howard
2002 - Chicago [Chicago], Rob Marshall
2003 - O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei [The Lord of the Rings: The Return of the King], Peter Jackson
2004 - Menina de Ouro [Million Dollar Baby], Clint Eastwood
2005 - Crash - No Limite [Crash - Lions Gate], Paul Haggis
2006 - Os Infiltrados [The Departed], Martin Scorsese
2007 - Onde os Fracos Não Têm Vez [No Country For Old Men], dos irmãos Joel e Ethan Coen
2008 - Quem Quer Ser Um Milionario [Slumdog Millionaire], Danny Boyle

09/11/09

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar, o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.
****
Carlos Drummond de Andrade

08/11/09

O Gosto do Nada


O Gosto do Nada


Espírito sombrio, outrora afeito à luta,

A Esperança, que um dia te instigou o ardor,

Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,

Cavalo que tropeça e cujo pé reluta.


Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta.


Espírito alquebrado! Ao velho salteador

Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;

Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!

Prazer, dá trégua a um coração desfeito em dor!


Perdeu a doce primavera o seu odor!


O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,

Como a neve que um corpo enrija de torpor;

Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,

E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.


Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?


Charles Baudelaire

07/11/09

Memória


Amar o perdido

deixa confundido

este coração.


nada pode o olvido

contra o sentido

apelo do Não.


As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão.


Mas as coisas findas,

muito mais que lindas,

essas ficarão.

***




Carlos Drummond de Andrade

06/11/09

O menino do pijama listrado (The Boy in the Stripped Pyjamas, 2008)


Bruno (Asa Butterfield), de 8 anos, é filho de um oficial nazista que assume um cargo em um campo de concentração (Auschwitz), deixando Berlim e mudando-se para uma área desolada, onde não há muito o que fazer para uma criança de sua idade. Ao explorar o local, ele conhece Shmuel (Jack Scanlon), um garoto de sua idade que sempre está com um pijama listrado e do outro lado de uma cerca eletrificada. Bruno passa a visitá-lo frequentemente, sem o conhecimento de sua mãe (Vera Farmiga), surgindo entre eles uma amizade e questionamentos sobre a vida adulta e a verdade sobre seu pai.
Dirigido por Mark Herman, baseado em livro de John Boyne, e produzido por David Heyman. A música é de James Horner.
Minha nota: ****

05/11/09

VOZ DA NOITE


O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.
A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece...

Helena Kolody, 1986

04/11/09

Spleen 2


Spleen 2



Eu tenho mais recordações do que há em mil anos.

Uma cômoda imensa atulhada de planos,

Versos, cartas de amor, romances escrituras,

Com grossos cachos de cabelo entre as faturas,

Guarda menos segredos que o meu coração.

É uma pirâmide, um fantástico porão,

E jazigo não há que mais mortos possua.

- Eu sou um cemitério odiado pela lua,

Onde, como remorsos, vermes atrevidos

Andam sempre a irritar meus mortos mais queridos.

Sou como um camarim onde há rosas fanadas,

Em meio a um turbilhão de modas já passadas,

Onde os tristes pastéis de um Boucher desbotado

Ainda aspiram o odor de um frasco destampado.

Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias,

Quando, sob o rigor das brancas invernias,

O tédio, taciturno exílio da vontade,

Assume as proporções da própria eternidade.

- Doravante hás de ser, ó pobre e humano escombro!

Um granito açoitado por ondas de assombro,

A dormir nos confins de um Saara brumoso;

Uma esfinge que o mundo ignora, descuidoso,

Esquecida no mapa, e cujo áspero humor

Canta apenas os raios do sol a se pôr.


Charles Baudelaire

03/11/09

Serenata


Permita que eu feche os meus olhos,

pois é muito longe e tão tarde!

Pensei que era apenas demora,

e cantando pus-me a esperar-te.


Permite que agora emudeça:

que me conforme em ser sozinha.

Há uma doce luz no silêncio,

e a dor é de origem divina.


Permite que eu volte o meu rosto

para um céu maior que este mundo,

e aprenda a ser dócil no sonho

como as estrelas no seu rumo.

::::::

Cecília Meireles

02/11/09

Folha


[...] Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.

O vento da vida pôs-te ali.

A princípio não te vi:

não soube que ias comigo,

até que as tuas raízes

atravessaram o meu peito,

se uniram aos fios do meu sangue,

falaram pela minha boca,

floresceram comigo.


(Pablo Neruda)
Foto: Por-do-SOl na Vista Alegre (Liz Guides - Nov/2009)

Canção


Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.


Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

****

Cecília Meireles
Crédito: gettyimages.com

01/11/09

O Outro


Como decifrar pictogramas de há dez mil anos

se nem sei decifrar

minha escrita interior?


Interrogo signos dúbios

e suas variações calidoscópicas

a cada segundo de observação.


A verdade essencial

é o desconhecido que me habita

e a cada amanhecer me dá um soco.


Por ele eu também sou observado

com ironia, desprezo, incompreensão.

E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,

unidos, impossibilitados de desligamento,

acomodados, adversos,

roídos de infernal curiosidade.

:::


Carlos Drummond de Andrade

(Corpo - Novos Poemas , 4ª edição).
Foto: Por-do-sol em Curitiba, Outubro/2009
Liz Guides

31/10/09

Tuas mãos


Quando tuas mãos saem,

amada, para as minhas,

o que me trazem voando?
Por que se detiveram

em minha boca, súbitas,

e por que as reconheço

como se outrora então

as tivesse tocado,

como se antes de ser

houvessem percorrido

minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava


voando por sobre o tempo,

sobre o mar, sobre o fumo,

e sobre a primavera,

e quando colocaste

tuas mãos em meu peito,

reconheci essas asas

de paloma dourada,

reconheci essa argila

e a cor suave do trigo.

A minha vida toda


eu andei procurando-as.

Subi muitas escadas,

cruzei os recifes,

os trens me transportaram,

as águas me trouxeram,

e na pele das uvas

achei que te tocava.

De repente a madeira

me trouxe o teu contacto,

a amêndoa me anunciava

suavidades secretas,

até que as tuas mãos

envolveram meu peito

e ali como duas asas

repousaram da viagem.

...

Pablo Neruda
Foto: Liz e Gui, 1976

30/10/09

CREPÚSCULO


E lá se foi, correndo, a mocidade,

entre horas de amor e de tortura,

como um farrapo de felicidade

que, embora longe, a gente inda procura...

.

E nesse procurar, é com saudade

que recomponho instantes de ventura...

e o sofrimento que o meu peito invade

põe em meus lábios versos de ternura...

.

É que, no caminhar para a velhice,

sinto que não passaram de tolice

os anseios de amar e ser amado...

.

Pois tive, no caminho percorrido,

pela glória de muito haver sofrido,

a amargura de muito haver sonhado...

***

Ciro Vieira da Cunha

29/10/09

Almas paralelas


Alma irmã de minh'alma, espelho vivo

de outro espelho fiel, que te retrata;

alma de luz serena e intemerata,

cujo influxo de amor me tem cativo!

.

Bem sinto que em mim vives e em ti vivo;

no entanto (e eis o desgosto que me mata!)

de amor a doce vaga me arrebata,

e não posso atingir teu vulto esquivo.

.

O mesmo curso tem nossos destinos,

do gozo, o mel; da dor, os desatinos,

a um nada inspiram, sem que o outro inspirem;

.

mas, triste some! Ó bela entre as mais belas!

Eles são como duas paralelas:

- próximos correm, sem jamais se unirem!

>>>>

Antonio Augusto de Lima

(1860/1934)

28/10/09

"Carta"


"Carta"

******

Aqui, tudo é bonito e quieto, a gente

vai vivendo uma vida sempre igual...

- Há um dia que o regato de cristal

de águas turvas ficou devido à enchente...

.


Os dias têm passado, lentamente,

e um tédio sinto em mim, de um modo tal,

que às vezes, fico até sentimental,

lembrando-me de ti, saudosamente...

.


Quando estavas aqui, - tudo era lindo...

Como um doce casal de beija-flores,

vivíamos os dois sempre sorrindo...

.


Por que não voltas?... Vem!... - Se tu voltares

o céu há de cobrir-se de outras cores...

- as flores voltarão pelos pomares!...

.............


J. G. de Araujo Jorge Jorge

27/10/09

Coração


Coração é terra que ninguém vê


Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei. Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura da ingratidão.
Coração é terra que ninguém vê - diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...


Cora Coralina
(Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985)

26/10/09

"Essa Aritmética..."


"Essa Aritmética..."

##############

Antes, eu era apenas metade

de um Ser, a pervagar sem rumo certo,

à procura ideal dessa unidade

que é como um novo mundo descoberto.

Enquanto sós, que somos? Um deserto

a nos pesar com sua imensidade,

existir só começa, a céu aberto,

quando dois são um só - eis a verdade!

Eu vinha por aí, aos solavancos,

como se diz: aos trancos e barrancos,

um pedaço a rolar, uma metade

de um Ser, mas quis a sorte, nos achamos,

e ao nos somarmos, nos multiplicamos

nessa aritmética da felicidade.

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J. G. de Araújo Jorge

25/10/09

Fatalidade


Sonhei, amei, pela existência afora,

na dourada ilusão da primavera

e muito mais sonhara, se pudera

e mais amara, permitido fora.

.

Sonhei, amei, cantei, sabendo embora

que pelo mundo imenso da quimera

a treva do horizonte se apodera

e o perfume das flores se evapora.

.

Afinal, pelo abismo em que resvalo,

talvez o desengano foi meu prêmio

e quem fora capaz de desejá-lo?

.

No desengano imenso que me inquieta,

eu vou vivendo ao léu, como um boêmio

e vou sonhando sempre, como um poeta.

*****

Affonso Montenegro Louzada

24/10/09

Eu sei que vou te amar

Eu Sei Que Vou te Amar

Composição: Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida...

Árvores do Alentejo


Árvores do Alentejo

*********************


Horas mortas... curvadas aos pés do Monte

A planície é um brasido... e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção duma fonte!



E quando, manhã alta, o sol postonte

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!



Árvores! Corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!



Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

-Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!

_______________________


Florbela Espanca

23/10/09

Eu não existo sem você


Eu não existo sem você

***
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim,

Que nada nesse mundo levará você de mim.

Eu sei e você sabe que a distância não existe

Que todo grande amor

Só é bem grande se for triste.

Por isso, meu amor

Não tenha medo de sofrer

Que todos os caminhos

Me encaminham pra você.

Assim como o oceano

Só é belo com luar

Assim como a canção

Só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem

Só acontece se chover

Assim como o poeta

Só é grande se sofrer

Assim como viver

Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim

Eu não existo sem você.


(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

22/10/09

Memória


Memória

********

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão;

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.


Carlos Drummond de Andrade

21/10/09

Uma chance para viver (Living Proof, EUA, 2009, 90minutos)


Filme dirigido por Dan Ireland, produzido por Renée Zellwwegger e baseado na história real de Dennis Slamon e no livro "Her-2"! Harry Connick Jr. estrela no papel do Dr. Dennis Slamon, que trabalha em um pequeno laboratório da UCLA (Universidade da California, Los Angeles), num momento especial em sua carreira. Ele ajudou a desenvolver uma droga experimental chamada Herceptin®, um possível tratamento revolucionário na luta contra o câncer de mama, mas encontra dificuldade no financiamento para seu projeto na empresa Genentech ,que teme prejuízos; então surgem os filantropos Lilly Tartikoff e Ron Perelman, que ajudam o trabalho mais importante da vida do médico a tornar-se realidade.
Censura livre.

Minha nota: ****

LÁGRIMAS OCULTAS


Se me ponho a cismar em outras eras

Em que ri e cantei, em que era querida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida...

.

E a minha triste boca dolorida,

Que dantes tinha o rir das primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!

.


E fico, pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida dum lago

O meu rosto de monja de marfim...

.


E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!

...


Florbela Espanca

20/10/09

Definitivo


Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,

mas das coisas que foram sonhadas

e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,

apenas agradecer por termos conhecido

uma pessoa tão bacana,

que gerou em nós um sentimento intenso

e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos

o que foi desfrutado e passamos a sofrer

pelas nossas projeções irrealizadas,

por todas as cidades que gostaríamos

de ter conhecido ao lado do nosso amor

e não conhecemos,

por todos os filhos que

gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,

por todos os shows e livros e silêncios

que gostaríamos de ter compartilhado

e não compartilhamos.

Por todos os beijos cancelados

pela eternidade.



Carlos Drummond de Andrade

19/10/09

Soneto

(Unforgetable... Inesquecível)
***
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

.
Luís de Camões

18/10/09

" LÍRICA Nº 2" ( Afinal tu vieste )





"Afinal


tu vieste justificar minha presença


na vida.


E agora que te foste,


deixas, inexplicável,


minha vida, sem morte."


.
J. G. de Araújo Jorge ("ESPERA..."- 1960 )

17/10/09

SONHANDO...


SONHANDO...



É noite pura e linda. Abro a minha janela

E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela.
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!
.

D'olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d'alma.
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.
.

Lá vem a tua agora... Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa
.

Que a minh'alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...
.
Florbela Espanca

.............................

16/10/09

A MORTE

(Igreja Matriz de Extrema/MG - 16/10/1976)


" E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem no céu
de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
[...] A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaros(o)a, de mãos pensas."
.
Carlos Drummond de Andrade





A morte
é como o amor:
a coisa mais comum, mais repetida.

A morte
é como a dor,
é como a Vida

Sempre que chega é "nova",
imprevista, estranha,
desconhecida,


e entretanto está sempre conosco
e sempre nos acompanha,
desde o primeiro hausto
de vida.

Apesar de ser a coisa mais comum,
(prosaica, heróica, trágica, banal
ou bela)
nunca nos acostumamos a ela!
.
J. G. de Araújo Jorge,

do livro" Cantiga do Só ", 2ª edição, 1968.




***

15/10/09

"Als ich kann (Como eu posso)?"

"Mulher com guarda-sol", de Claude Monet.
***

"Cada um guarda no fundo de si mesmo uma espécie de pequeno cemitério, onde jazem as pessoas que amou. Aí dormem elas, durante anos, sem que nada as desperte. Mas, chega o dia - sabe-se bem - em que a cova se abre. Os mortos erguem-se do túmulo e sorriem ao amante, ao amado, em cujo seio a sua recordação repousa , tal qual a criança que dorme nas entranhas maternas.

[...] A gente não faz o que quer. Querer e viver são duas coisas diferentes. É preciso conformar-nos. O essencial é não cansar de querer e viver. O resto não depende de nós.

Als ich kann (Como eu posso)?"




("Jean-Christophe ", de Romain Rolland, vol I, págs. 354, 412 e 413)

14/10/09

Alma minha gentil, que te partiste



Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
.

Luís de Camões
.

13/10/09

Substituição



Se uma adorada voz, que fora em vossa vida,

suavidade e som, de repente se esvai,

e se logo um silêncio impenetrável cai,

qual súbito mal-estar ou dor desconhecida,


- que esperança há? Que auxílio? E que música ouvida,

o silêncio destrói? Nem da amizade o ai

– nem da razão sutil a conta; não se vai

ao som de violino ou de flauta gemida;



nem canções de poeta e nem de rouxinóis,

a voz que vai subindo através dos ciprestes

até à clara lua; e medo lhe não causa




das esferas, o canto – ou dos anjos, nos sóis,

a voz que sobe a Deus; ó não, nenhuma destas!

Fala só Tu, ó Cristo, e preenche esta pausa.

.
Elizabeth Barrett Browning

(Tradução de Alexandre Herculano de Carvalho)

12/10/09

P.S. Eu Te Amo (P.S., I Love You, 2007)



Holly Kennedy (Hilary Swank) é uma jovem feliz, casada com Gerry (Gerard Butler), um irlandês divertido, por quem é completamente apaixonada. Porém, Gerry morre devido a uma doença e a vida de Holly também acaba, já que ela entra em profunda depressão. Mas o que ela não esperava era que, imaginando que isto poderia acontecer, Gerry deixou para ela diversas cartas antes de morrer, que aparecem de forma inusitada, cada uma delas buscando guiar Holly no caminho de sua recuperação, não apenas da dor pela sua perda mas também de sua própria redescoberta. Baseado no livro homônimo da escritora irlandesa Cecelia Ahern.


Minha nota: ****

Noite Antiquíssima


I
Noite Rainha nascida destronada,

Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,

Vem, levemente,

Vem sozinha, solene, com as mãos caídas

Ao teu lado, vem

E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,

Funde num campo teu todos os campos que vejo,

Faz da montanha um bloco só do teu corpo,

Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,

Todas as estradas que a sobem,

Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,

Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,

E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,

Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,

Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora

Das coisas impossíveis que procuramos em vão,

Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,

Dos propósitos que nos acariciam

Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas

Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,

E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...

Vem e embala-nos,

Vem e afaga-nos.

Beija-nos silenciosamente na fronte,

Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam

Senão por uma diferença na alma.

E um vago soluço partindo melodiosamente

Do antiquíssimo de nós

Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha

Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos

Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima, Soleníssima e cheia

De uma oculta vontade de soluçar,

Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,

E todos os gestos não saem do nosso corpo,

E só alcançamos onde o nosso braço chega,

E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,

Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,

Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados.

Mão fresca sobre a testa em febre dos Humildes.

Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.

Vem, lá do fundo

Do horizonte lívido,

Vem e arranca-me

Do solo de angústia e de inutilidade

Onde vicejo. Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,

Folha a folha lê em mim não sei que sina

E desfolha-me para teu agrado,

Para teu agrado silencioso e fresco.

Uma folha de mim lança para o Norte,

Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;

Outra folha de mim lança para o Sul,

Onde estão os mares que os Navegadores abriram;

Outra folha minha atira ao Ocidente,

Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,

Que eu sem conhecer adoro;

E a outra, as outras, o resto de mim

Atira ao Oriente,

Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,

Ao Oriente pomposo e fanático e quente,

Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,

Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,

Ao Oriente que tudo o que nós não temos,

Que tudo o que nós não somos,

Ao Oriente onde – quem sabe?

– Cristo talvez ainda hoje viva,

Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,

Sobre os mares maiores,

Sobre os mares sem horizontes precisos,

Vem e passa a mão pelo dorso da fera,

E acalma-o misteriosamente,

Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,

Vem, maternal,

Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste

À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,

E que viste nascer Jeová e Júpiter,

E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,

Vem envolver na noite manto branco

O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,

Tranquilamente com um gesto materno afagando.

Com as estrelas luzindo nas tuas mãos

E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.

Todos os sons soam de outra maneira

Quando tu vens.

Quando tu entras baixam todas as vozes,

Ninguém te vê entrar. Ninguém sabe quando entraste,

Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,

Que tudo perde as arestas e as cores,

E que no alto céu ainda claramente azul

Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.



II
Ah, o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades

E a mão de mistério que abafa o bulício,

E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe

Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!

Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios

E que misterioso o fundo unânime das ruas,

Das ruas ao cair da noite, ó Cesário e Verde, ó Mestre,

Ó do «Sentimento de um Ocidental»!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,

Que nem são países, nem momentos, nem vidas,

Que desejo talvez de outros modos de estados de alma

Umedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,

Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas

Como um mendigo de sensações impossíveis

Que não sabe quem lhas possa dar...

Quando eu morrer,

Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,

Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,

Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos,

Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,

Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,

Por este hora mística e espiritual e antiquíssima,

Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,

Platão sonhando viu a ideia de Deus

Esculpir corpo e existência nitidamente plausível

Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,

Por esta hora que eu não sei como viver,

Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,

Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,

Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,

Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível

Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira

que eu não tenho nem quero ter.

Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio

A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,

Olha-me em silêncio e em segredo e pergunto a ti própria

– Tu que me conheces – quem eu sou...

.

Álvaro de Campos (heteronômio de Fernando Pessoa)
A ortografia usada é a da época.

30/06/1914 (publicado na Revista de Portugal, nº 4, Julho de 1938)

11/10/09

O MEU CONDÃO


O MEU CONDÃO

.

Quis Deus dar-me o condão de ser sensível

Como o diamante à luz que o alumia,

Dar-me uma alma fantástica, impossível:

- Um bailado de cor e fantasia!

.

Quis Deus fazer de ti a ambrosia

Desta paixão estranha, ardente, incrível!

Erguer em mim o facho inextinguível!
Como um cinzel vincando uma agonia!

.

Quis Deus fazer-me tua... para nada!

Vãos, os meus braços de crucificada,

Inúteis, esses beijos que te dei!

.

Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?...

Se a um gesto dos teus a sombra esconde

O caminho de estrelas que tracei...

***

Florbela Espanca

10/10/09

SE TU VIESSES VER-ME...


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços...

.

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca...o eco dos teus passos...

O teu riso de fonte...os teus abraços...

Os teus beijos...a tua mão na minha...

.

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

.

E é como um cravo ao sol a minha boca...

Quando os olhos se me cerram de desejo...

E os meus braços se estendem para ti...

*

Florbela Espanca

09/10/09

Como é por dentro outra pessoa


Como é por dentro outra pessoa

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

****
Fernando Pessoa, 1934

08/10/09

Chá com Mussolini / As penas do Amor / Bolo Inglês

O diretor franco Zefirelli conta a história de Luca Innocenti , um garoto nascido bastardo e não-reconhecido oficialmente por seu pai, e que luta por sua independência e para achar um meio onde possa desenvolver seu apreço pela arte. Os anos seguintes (1935 a 1944) são uma evocação de um mundo desaparecido: o da quieta e bela cidade de Florença, à beira da Segunda Guerra Mundial, onde ele é criado por senhoras inglesas(conhecidas como as "scorpioni"): Arabella (Judi Dench), Mary (Joan Plowright) e a viúva de um diplomata, Hester (Maggie Smith), que retratam o excêntrico, colorido e legado das senhoras britânicas e que, juntamente com uma colecionadora de arte americana (Cher) e uma arqueologista (Lily Tomlin), dividem seu tempo em debates sobre a situação do país em plena Era Mussolini.
Site Oficial:
www.mgm.com/teawithmussolini


As penas do amor

Sobre os telhados a algazarra dos pardais,
Redonda e cheia a lua - e céu de mil estrelas,
E as folhas sempre a murmurar seus recitais,
Haviam esquecido o mundo e suas mazelas.
Então chegaram teus soturnos lábios rosas,
E junto a eles todas lágrimas da terra,
E o drama dos navios em águas tempestuosas
E o drama dos milhares de anos que ela encerra.
E agora, no telhado a guerra dos pardais,
A lua pálida, e no céu brancas estrelas,
De inquietas folhas, cantilenas sempre iguais,
Estão tremendo - sob o mundo e suas mazelas."
(Título Original: "The sorrow of Love")
Autor: William Butler Yeats
Tradutor: André C S Masini
*******




BOLO INGLÊS
Ingredientes:
• 180 g de manteiga derretida resfriada
• 180 g de açúcar
• 180 g de farinha peneirada
• 3 ovos
• 1 colher (café) de fermento químico
Prepare assim:
• Unte uma forma de bolo inglês com manteiga e deixe o forno pré-aquecido a 200ºC;
• Pese os ovos e pese exatamente o mesmo peso em açúcar, manteiga e farinha;
• Misture a manteiga e o açúcar juntos e bata com o batedor até obter um creme (na falta de balança, utilize as medidas dadas acima);
• Acrescente a essência de baunilha;
• Deixe reduzir, corrija o sal se necessário;
• Separe os ovos e incorpore as gemas, uma a uma, no creme de manteiga;• Misture o fermento e a farinha neste mesmo creme;
• Separadamente, bata as claras em neve de maneira que fiquem bem firmes e incorpore à massa;
• Derrame essa massa na forma e asse por 35 minutos;
• Desenforme e deixe esfriar numa grelha.

07/10/09

O Sofrimento


"O enigma do sofrimento tem a idade do próprio sofrimento. Dizer isso é enunciar um axioma. O primeiro homem a sentir o aguilhão da dor foi, sem dúvida,o primeiro a lançar para o infinito o brado de angústia:
- Por quê?
E daí para nosso dias esse 'por quê' doloroso e desconcertante vem-se avolumando mais e mais, a cada geração que passa, a cada calamidade que aflija os homens."

*Autor desconhecido

06/10/09

Reine Sobre Mim (Reign Over Me- 2007)


Após perder a esposa e três filhas no atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, Charlie Fineman (Adam Sandler)foge de seus sentimentos e dor; mas reencontra um antigo colega de quarto dos tempos da faculdade de odontologia, Alan Johnson (Don Cheadle), profissional de sucesso, casado com Janeane Johnson (Jada Pinkettt Smith) e pai de duas filhas, e que se sente sobrecarregado pela vida. Alan, com a ajuda de uma psiquiatra, a dra. Angela (Liv Tyler), vai ajudar o amigo a falar do passado e descobrir um novo caminho.
"Reine Sobre Mim" foi escrito e dirigido por Mike Binder. O título é uma referência à canção de Pete Townshen para a banda The Who, "Love, Riegn O'er Me".
Minha nota: ****

Carta para o Amor ausente

Nesta manhã nevoenta de fumaça
estou morrendo de saudades tuas;
há na minha alma convulsão de luas,
há no meu peito a angústia que amordaça.
.
Amor, estou sorvendo a amarga taça,
a taça amarga das verdades cruas;
e busco em vão no retinir das ruas,
sufocar este amor que me desgraça.
.
Inútil!... E a obsessão dos teus abraços?!
Sinto em mim ainda as mãos do teu carinho,
dedilharem as cordas dos meus braços,
.
e tua ausência, e o teu silêncio enorme,
vivem cantando para mim baixinho,
ninando esta saudade que não dorme!
.
Eny Santos Júdice (1930)

05/10/09

Chove.



Chove. Que fiz eu da vida?

Fiz o que ela fez de mim...

De pensada, mal vivida...

Triste de quem é assim!

.

Numa angústia sem remédio

Tenho febre na alma, e, ao ser,

Tenho saudade, entre o tédio,

Só do que nunca quis ter...

.
Quem eu pudera ter sido,

Que é dele? Entre ódios pequenos

De mim, 'stou de mim partido.

Se ao menos chovesse menos!

:::
Fernando Pessoa, 23-10-1931

04/10/09

Desiderata (Serenidade)

"Transite com calma entre a bulha e a pressa, e não se recuse à paz do silêncio. Sem sacrificar os seus princípios, seja cordial com todos. Mostre sereno e calmo a sua verdade; e escute a dos outros, mesmo a dos pobres de espírito: eles também tem o que dizer. Comparando-se com os outros, evite as mágoas e a vaidade, porque sempre haverá gente abaixo e acima de você .
Goze as suas vitórias como os seus projetos. Não despreze a sua carreira, por mais humilde que seja; ela será um bem nas incertezas do amanhã. Proceda com cautela nos contratos do comércio, pois o mundo está cheio de raposas. Mas que a cautela não o cegue para a virtude: existe idealismo também, e não falta heroísmo ao mundo.
Seja fiel a si mesmo. Acima de tudo, nunca finja afeição. Jamais seja cínico em amor, pois mesmo com o risco de aridez e desencanto, ele é perene como a grama. Aceite de bom grado as poderações da idade, não se apegue aos bens da juventude. Exercite a fortaleza de ânimo para se garantir nos desastres súbitos. Mas não se deixe transportar pela imaginação.
Muitos receios nascem do cansaço e da solidão. Adote uma disciplina saudável, mas não se esgote por ela. Você é filho do universo, como as árvores e as estrelas, e tem o direito de estar aqui. E quer você entenda quer não, o universo se expande como deve. E esteja, pois, em paz com Deus, com o seu Deus, e sejam quais forem as suas lutas e ideais, viva em paz.
Malgrado as imposturas, as durezas e as decepções, o mundo ainda é belo. Tenha cuidado. Procure ser feliz."

Max Ehrmann, poeta e teatrólogo americano(1872-1945). Tradução do Padre Antonio Maria Cabral.

O meu impossível

O meu impossível
********
Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!
.
Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...
.
Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...
.
Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...
*********
Florbela Espanca

03/10/09

Com licença poética


Com licença poética
.
Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

***

Adelia Prado

02/10/09

Saudade




Saudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,

é recusar um presente que nos machuca,

é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,

é a dor dos que ficaram para trás,

é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:

aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:

não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.



Pablo Neruda

01/10/09

A nossa casa


A NOSSA CASA
.
A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
.
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
.
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
.
Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
***
Florbela Espanca

30/09/09

Sermão de casamento

(getty images)
Sermão de casamento

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?"Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros.Escolha o seu amor. Ame a sua escolha !

Martha Medeiros

29/09/09

Déjà vu (2007, 126 min.)


Chamado para recuperar provas após atentado que explodiu uma balsa em New Orleans, o agente federal especial Doug Carlin (Denzel Washington), que trabalha para a Agência do Tabaco, Álcool e Armas de Fogo, envolve-se em um projeto ultra-secreto do governo americano: um laboratório que manipula a relação entre tempo e espaço, para ajudar a prevenir crimes no futuro. Mas será que essa máquina pode mudar o passado?



Minha nota: ****

Eu amo tudo o que foi,

Tudo o que já não é,

A dor que já me não dói,

A antiga e errônea fé,

O ontem que dor deixou,

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.



Fernando Pessoa, 1931

Canção na plenitude


Canção na plenitude
*********************
Não tenho mais os olhos de menina

nem corpo adolescente, e a pele

translúcida há muito se manchou.

Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura

agrandada pelos anos e o peso dos fardos

bons ou ruins.

(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)


O que te posso dar é mais que tudo

o que perdi: dou-te os meus ganhos.

A maturidade que consegue rir

quando em outros tempos choraria,

busca te agradar

quando antigamente quereria

apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza

e juventude agora: esses dourados anos

me ensinaram a amar melhor, com mais paciência

e não menos ardor, a entender-te

se precisas, a aguardar-te quando vais,

a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

e sobretudo força — que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável

cujas marés — mesmo se fogem — retornam,

cujas correntes ocultas não levam destroços

mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft

O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

28/09/09

Convite



Convite


Não sou a areia

onde se desenha um par de asas

ou grades diante de uma janela.

Não sou apenas a pedra que rola

nas marés do mundo,

em cada praia renascendo outra.

Sou a orelha encostada na concha

da vida, sou construção e desmoronamento,

servo e senhor, e sou mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro

para o palco de meu tempo:

o meu destino e eu.

Nem sempre estamos afinados,

nem sempre nos levamos a sério.

******

Lya Luft

27/09/09

O amor antigo


O amor antigo

*************

O amor antigo vive de si mesmo,

Não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

Mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,

Feitas de sofrimento e beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

E por estas suplanta a natureza.

Se em toda a parte o tempo desmorona

Aquilo que foi grande e deslumbrante,

O antigo amor, porém, nunca fenece

E a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

E resplandece no seu canto obscuro,

Tanto mais velho quanto mais amor.

***

Carlos Drummond de Andrade
Foto: Acampamento Ágape, Campo Mourão-PR, 1975.

26/09/09

Dança Comigo?

O bem sucedido advogado John Clark (Richard Gere), especialista em testamentos e viciado em trabalho, leva uma vida rotineira do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Apesar de amar sua mulher, Beverly (Susan Sarandon) e seus filhos, John sente que algo está faltando algo em sua vida. Por acaso ,vê na janela de uma academia Paulina (Jennifer Lopez), uma bela professora de dança. Esperando aproximar-se dela, matricula-se na academia, mas Paulina elimina qualquer possibilidade de envolvimento com John; isto não o faz deixar de ir à academia, pois ele acha cada vez mais relaxante e divertido dançar, e treina para participar de uma grande competição. Entretanto, John não se sente à vontade para contar para Beverly, que ao ver mudanças no comportamento do marido contrata um detetive, pois suspeita que ele esteja envolvido com alguém.
Site Oficial:
www.miramax.com/shallwedance
http://www.youtube.com/watch?v=qkh3qKkrVpQ

Minha nota para o filme: ****
MInha nota para Richard Gere: *****



A morte vem de longe

Do fundo dos céus

Vem para os meus olhos,

Virá para os teus.

Desce das estrelas

Das brancas estrelas

As loucas estrelas

Trânsfugas de Deus

Chega impressentida

Nunca inesperada

Ela que é na vida

A grande esperada!

A desesperada

Do amor fratricida

Dos homens, ai! dos homens

Que matam a morte

Por medo da vida.

****************

Vinicius de Moraes

25/09/09

O tempo passa? Não passa


(Quadro: Richard S. Johnson)
**************
O tempo passa? Não passa


no abismo do coração.


Lá dentro, perdura a graça


do amor, florindo em canção.


O tempo nos aproxima


cada vez mais, nos reduz


a um só verso e uma rima


de mãos e olhos, na luz.


Não há tempo consumido


nem tempo a economizar.


O tempo é todo vestido


de amor e tempo de amar.


O meu tempo e o teu, amada,


transcendem qualquer medida.


Além do amor, não há nada,


amar é o sumo da vida.


São mitos de calendário


tanto o ontem como o agora,


e o teu aniversário


é um nascer toda hora.


E nosso amor, que brotou


do tempo, não tem idade,


pois só quem ama escutou


o apelo da eternidade.


*******************


Carlos Drummond de Andrade

24/09/09

"A Casa Abandonada"


Abro a janela da minha alma e espio:

- tudo é negro, é completa a escuridão...

Nesse estranho lugar, triste e vazio,

hoje habita somente a solidão.

Há teias de saudade em cada canto,

e a poeira de um amor cobre o seu chão...

São sombrias as salas, - velho encanto

há nesse feio e escuro casarão.

Uma ruína em meu peito, abandonada,

com muros desbotados... cheios de hera...

- como um túmulo à beira de uma estrada,

que nada mais desta existência espera...

O tempo, pouco a pouco, já a consome,

- outrora, por exemplo - havia um nome

de mulher, no portal, mas se apagou...

Quantos homens como eu, na alma fechada,

vão levando uma casa abandonada

de onde alguém que partiu não mais voltou!..


(Poema de J. G. de Araujo Jorge,
extraído do livro"Meu Céu Interior", 1ª edição, setembro,1934.)

23/09/09

"Poeminha Amoroso"


Este é um poema de amor

tão meigo, tão terno, tão teu...

É uma oferenda aos teus

momentos de luta e de brisa e de céu...

E eu,

quero te servir a poesia

numa concha azul do mar

ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.

Mas se isso não acontecer,

não importa.

Já está declarado e estampado

nas linhas e entrelinhas

deste pequeno poema,

o verso;

o tão famoso e inesperado verso que

te deixará pasmo,

surpreso, perplexo...

eu te amo, perdoa-me, eu te amo...


Foto: Sueli Batista Guides.

Cai chuva do céu cinzento



Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.
.
Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.
.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não,

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração.

.

Fernando Pessoa

Imagem: gettyimages


22/09/09

Já és minha.


Já és minha.

Repousa com teu sonho em meu sonho.

Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.

Gira a noite sobra suas invisíveis rodas

e junto a mim és pura como âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.

Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.

Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,

só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados

e deixaram cair suaves sinais sem rumo,

teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:

a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,

e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.


Pablo Neruda

21/09/09

Sonetos Portugueses III


"Parte: não te separas? Que jamais

Sairei de tua sombra. Por distante

Que te vás, em meu peito, a cada instante,

Juntos dois corações batem iguais.

.
Não ficarei mais só. Nem nunca mais

Dona de mim, a mão, quando a levante,

Deixará de sentir o toque amante

Da tua, - ao que fugi. Parte: Não sais!

.
Como o vinho, que às uvas donde flui

Deve saber, é quanto faço e quanto

Sonho, que assim também todo te inclui.
.

A ti, amor! minha outra vida, pois

Quando oro a Deus, teu nome Ele ouve e o pranto

Em meus olhos são lágrimas de dois."
***

Elizabeth Browning Barret

Tradução de Manuel Bandeira
* gettyimages.com

20/09/09

PRESENÇA


PRESENÇA

*************

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

***
Mario Quintana

19/09/09

The Teahouse of the August Moon

"A Casa de Chá do Luar de Agosto" é um filme de 1956, dirigido por David Mann, com roteiro de John Patrick, baseado em livro de Vern J. Sneider.
Terminou a Segunda Guerra Mundial, Wainwright Purdy III (Paul Ford) é um coronel americano que comanda as tropas de ocupação no Japão e que está determinado a levar a cultura ocidental para os habitantes locais. O capitão Fisby (Glenn Ford ) é enviado ao vilarejo Tobiki em Okinawa para ensinar democracia à população, devendo construir uma escola, mas os alunos, depois de explicar ao mestre suas tradicões, tentam persuadi-lo a construir o que mais interessa a eles: uma casa de chá. Fisby chega a Tobiki disposto a implantar o modo de vida americano aos moradores da região, a organizar um clube social feminino e construir uma escola em forma de pentágono. Entretanto, acontece uma aculturação às avessas, pois Sakini (Marlon Brando), o guia e intérprete do capitão, conduz a situação do seu modo, fazendo Fisby assimilar os hábitos orientais.
Marlon Brando recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator - Comédia/Musical.

Minha nota: ****






18/09/09

" Descoberta..."


" Descoberta..."



Aqui, sozinho,

percebo de repente

que a única coisa que sei fazer agora na vida

é te amar...

Minha vida se resume nesta angústia febril,

neste estranho tormento

de esperar pelo momento

em que vou novamente

te encontrar...



*************

J.G. de Araujo Jorge, do livro"A Sós..." 1a ed., 1958 )

17/09/09

" E Os Teus Olhos Assim... "


"E Os Teus Olhos Assim... "


Nos teus olhos existe uma tortura imensa,

uma sombra de noite entre vagos clarões,

essa expressão inquieta e incerta de quem pensa

e vive o terror das interrogações...


E ao tempo que se esvai, cada vez mais se adensa

a noite em teu olhar ocultando aflições...

Parece que morreste, ou que sofres da doença

terrível da loucura ou das meditações...


A tua alma parou... A tua alma tão moça

não é como a água viva em loucas enxurradas,

mas como a água parada e morta de uma poça...


E os teus olhos assim... lembram, nessa negrura,

duas janelas rindo, aos céus, escancaradas,

numa casa vazia abandonada e escura!


( Poema de J.G. de Araújo Jorge, extraído do livro"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"Vol. I - 1a edição, 1965 )

16/09/09

Soneto 116


De almas sinceras a união sincera

Nada há que impeça: amor não é amor

Se quando encontra obstáculos se altera

Ou se vacila ao mínimo temor.

.


Amor é um marco eterno, dominante,

Que encara a tempestade com bravura;

É astro que norteia a vela errante

Cujo valor se ignora, lá na altura.

.


Amor não teme o tempo, muito embora

Seu alfanje não poupe a mocidade;

Amor não se transforma de hora em hora,

.


Antes se afirma, para a eternidade.

Se isto é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

***

Shakespeare (Tradução de Bárbara Heliodora)

15/09/09

Aqui eu te amo.


Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.
Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.
Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre.

***
Pablo Neruda

14/09/09

Metade


Que a força do medo que eu tenho,

não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,

mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,
como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.

E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,

mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

e que o convívio comigo mesmo

se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,

um doce sorriso,

que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso

mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.

Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia

e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,

e a outra metade...

também.

********

13/09/09


Põe-me as mãos nos ombros...

Beija-me na fronte...

Minha vida é escombros,

A minha alma insonte.


Eu não sei por quê,

Meu desde onde venho,

Sou o ser que vê,

E vê tudo estranho.



Põe a tua mão

Sobre o meu cabelo...

Tudo é ilusão.

Sonhar é sabê-lo.

**************

Fernando Pessoa

12/09/09

Para meu coração

Para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre, minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o aljôfar às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
Tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

11/09/09

Casablanca


Neste filme de 1942, dirigido por Michel Curtiz, Casablanca é a rota obrigatória de quem está fugindo dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. É lá que Rick (Humphrey Bogart) vai reencontrar Ilsa (a belíssima Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado e se perdido em Paris, mas agora ela está casada com o herói Victor Laszlo (Paul Henreid).
Recebeu 3 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Foi ainda indicado em outras 5 categorias: Melhor Ator (Humphrey Bogart), Melhor Ator Coadjuvante (Claude Rains), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora para Comédia/Musical.
Minha nota: *****

09/09/09

"Oh, Como te Amo! Como à Luz do dia! "


Oh, como te amo! Como à luz do dia!
Teu nome invoco, apaixonada e triste,
e quando a noite veio, e tu partiste,
minha alma em ânsias ainda te pedia!
.
És para mim o tempo que me guia,
a idéia que ao meu pensamento assiste
porque em ti se concentra quanto existe:
a esperança, a paixão, minha poesia.
.
Não há canto que iguale em força e alento,
o teu amor, se sonhas e deliras;
num doce instante de arrebatamento...
.
Tremo ao te ouvir. Se me olhas tu me inspiras!
E quisera exalar o último alento,
abrasada ao calor do ar que respiras.
***
Carolina Coronado (1823-1911)
****************************
http://www.youtube.com/watch?v=U3BAkmUd5pc

07/09/09

O teu riso


Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,

a lança que desfolhas,

a água que de súbito

brota da tua alegria,

a repentina onda

de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso

com os olhos cansados

às vezes por ver

que a terra não muda,

mas ao entrar teu riso

sobe ao céu a procurar-me

e abre-me todas

as portas da vida.

Meu amor, nos momentos

mais escuros solta

o teu riso e se de súbito

vires que o meu sangue mancha

as pedras da rua,

ri, porque o teu riso

será para as minhas mãos

como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,

teu riso deve erguer

sua cascata de espuma,

e na primavera, amor,

quero teu riso como

a flor que esperava,

a flor azul, a rosa

da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,

do dia, da lua,

ri-te das ruas

tortas da ilha,

ri-te deste grosseiro

rapaz que te ama,

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando meus passos vão,

quando voltam meus passos,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria.

********************

Pablo Neruda

06/09/09

Noite


As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.
Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.
Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.
Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.
No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.
.........
Menotti del Picchia
São Paulo, SP, Brasil 1892 (*) - 1961 (+)

05/09/09

Traduzir-se


Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira. Uma parte de mim

almoça e janta:outra parte

se espanta.Uma parte de mim

é permanente:outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem: outra parte,

linguagem. Traduzir uma parte

na outra parte

- que é uma questão

de vida ou morte

- será arte?


*********

Ferreira Gullar
Crédito da imagem: gettyimages.com

04/09/09

" Coração Partido "


Acreditei que o coração já estava


curado para sempre. E já o havia


encantado com a música, a poesia


alta e pura, que à lira dedilhava.

.


E por onde eu seguia, onde eu passava,


a gentil primavera refloria;


- sonhos de paz e cantos de alegria,


a luz do sol em meu rincão entrava.


.

Mas, entre as rosas, eis que tu surgiste


como sempre, a sorrir, ó inconstante!


jogando redes, preparando laços...


.

E o meu altivo olhar tornou-se triste,


e o pobre coração, de novo, amante


outra vez aos teus pés fez-se em pedaços...




***


Juan Ramón Jiménez (poeta espanhol, 1881-1958)

Tradução de J. G. de Araújo Jorge
Créditos da imagem: gettyimages.com

03/09/09


"Não fique

triste nas despedidas.

Uma despedida é necessária antes

de vocês poderem se encontrar

outra vez.

E se encontrar de novo,

depois de momentos ou

de vidas, é certo para

os que são amigos."

***


Richard Bach (Ilusões)

02/09/09

Sono e sonho


Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho

Corre um rio sem fim.


Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.


Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.


E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre

- Esse rio sem fim.

..............................
Fernando Pessoa, 11-9-1933

01/09/09

" Meu Primeiro Amor "


O meu amor primeiro... o meu primeiro amor,
foi anseio, e viveu na incerteza de uma ânsia,
-botão que não se abriu... que não chegou a flor,
-um pedaço de céu, quase limpo e sem cor
perdido nos senfins azuis da minha infância...
.
Silhueta a se apagar, mas que o meu Ser divisa,
uma emoção feliz que nem foi emoção...
-nuvem leve a fugir aos impulsos da brisa,
tênue... vaga... sutil... bem distinta e imprecisa,
passando na memória do meu coração...
.
O meu primeiro amor, - um vulto que esqueci
num canto da lembrança a dormir empoeirado,
-um rosto que apagou porque nunca mais vi,
-um quadro que se esvai, e que deixei ali
esquecido no sótão velho de um passado...
.
Alma de uma ilusão pequenina e simplória
que se dissolve em mim... e aos poucos se desfaz...
parece outro destino, outra vida, outra história,
quando o tento arrancar das sombras da memória
tão longe... que ao lembrar-me... eu nem me lembro mais...
.
O meu primeiro amor... A primeira esperança
que abriu asas de sonho a procurar o além,
- hoje, é apenas lembrança a brincar na lembrança
levado na tristeza do que não se alcança,
na saudade de tudo o que nunca mais vem!
.
Pétala que entre um livro amarelou, perdida,
há muito tempo, há muito tempo... por alguém que o leu,
- e hoje, ao encontrá-la, seca e fenecida
no romance sem fim da minha própria vida
nem sei se quem a pôs entre as folhas fui eu...
.
O meu primeiro amor... O meu amor primeiro,
foi uma história azul dessas de "era uma vez"...
- uma história feliz... um conto verdadeiro
que um dia o meu Destino, um velho feiticeiro,
quis fazer mas não soube terminar talvez...
.
Minha glória primeira... e o meu maior desejo
de crescer, de subir, de explicar o Universo!
Passou... Foge de mim... mas ainda o sinto e o vejo,
- porque ele é a sensação do meu primeiro beijo
e a impressão imortal do meu primeiro verso!
***
J. G. de Araújo Jorge, extraído do livro"Bazar de Ritmos".

31/08/09

O Poço


Cais,

às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris

e minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.

***

Pablo Neruda

30/08/09

FUMO (Florbela Espanca)

(Cattleya quadricolor )
.

FUMO

.

Longe de ti são ermos os caminhos,

Longe de ti não há luar nem rosas,

Longe de ti há noites silenciosas,

Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

.

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

Perdidos pelas noites invernosas...

Abertos, sonham mãos cariciosas,

Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

.

Os dias são Outonos: choram...choram....

Há crisântemos roxos que descoram...

Há murmúrios dolentes de segredos....

.

Invoco o nosso amor sonho! Estendo os braços!

E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,

Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

...

Florbela Espanca
***

29/08/09

O Carteiro e o Poeta (Il postino, 1994)



Por razões políticas, o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) exila-se em uma remota ilha na Itália. Lá um desempregado quase analfabeto, Mario (Massimo Troisi) é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade. Neruda então o ajuda a conquistar seu grande amor, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta). O cenário italiano é deslumbrante e poético e a história, fictícia . Direção: Michael Radford.
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora - Drama.

Minha nota: ****
http://www.youtube.com/watch?v=CbGKKsf3_ag

"De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

Pablo Neruda

28/08/09

Feitiço do Tempo (Groundhog day, 1993)

O arrogante repórter de televisão Phil Connors (Bill Murray), que faz previsões metereológicas em Pittsburg, vai a uma pequena cidade para fazer uma matéria especial sobre o inverno e o Dia da Marmota, mas fica preso no tempo. Comédia de humor ácido sobre uma pessoa arrogante, mal-humorada e mal-educada com os subalternos, como a produtora Rita (Andie MacDowell) .
Minha nota: ****


27/08/09

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
*****************
Fernando Pessoa, 4-8-1930

A Morada da Sexta Felicidade (The Inn of the Sixth Happiness, EUA, 1958).


Este filme, espetacularmente produzido, é magnificamente interpretado por Ingrid Bergman, baseado na história verdadeira da inglesa Gladys Aylward, uma santa dos dias modernos, cuja paixão irredutível por fazer o bem a levou a atravessar meio mundo. Inspirada por seu sonho de tornar-se missionária, uma simples empregada viaja para a China, nos anos 30, e vai trabalhar em uma hospedaria para viajantes cansados e famintos que atravessam as desoladas trilhas nas montanhas.

Ela consegue vencer a hostilidade dos habitantes locais, ganhar o amor de um coronel eurasiano, Lin Na (Curt Jurgens), e converter um poderoso mandarim (Robert Donat) ao cristianismo. Mas seu grande feito acontece quando, durante a invasão japonesa da China, ela consegue levar uma centena de crianças sem lar a um local seguro, atravessando território dominado pelo inimigo. Para os chineses, deparamos no filme, cinco são as felicidades: a riqueza, a longevidade, a paz, a virtude e a saúde. A sexta felicidade seria essa hospedaria que centraliza o filme.

Forte e tocante, este filme inspirador foi adaptado do 'best seller' de Alan Burgess chamado The Small Woman.

26/08/09

As Minhas Mãos


As Minhas Mãos


As minhas mãos magritas, afiladas,

Tão brancas como a água da nascente,

Lembram pálidas rosas entornadas

Dum regaço de Infanta do Oriente.


Mãos de ninfa, de fada, de vidente,

Pobrezinhas em sedas enroladas,

Virgens mortas em luz amortalhadas

Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.


Magras e brancas... Foram assim feitas...

Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...

Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!


Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?!

Ó minhas mãos, aonde está o céu? ...

Aonde estão as linhas do teu rosto?



Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
Crédito da imagem: http://www.gettyimage.com/

25/08/09

O nosso livro


Livro do meu amor, do teu amor,

Livro do nosso amor , do nosso peito...

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas de flor.

.

Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais perfeito

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!

.

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindos sois!

.

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

"Versos só nossos, só de nós os dois!"

.

Florbela Espanca
Imagem: gettyimages.com

24/08/09

Há...


Há quanto tempo não canto
Na muda voz de sentir.
E tenho sofrido tanto
Que chorar fora sorrir.

Há quanto tempo não sinto
De maneira ao descrever,
Nem em ritmos vivos minto
O que não quero dizer...

Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.

Há quanto tempo assim duro
Sem vontade de falar!
Já estou amigo do escuro
Não quero o sal nem o ar.

Foi-me tão pesada e crescida
A tristeza que ficou
Que ficou toda a vida
Para cantar não sonhou.
.
Fernando Pessoa

23/08/09

Angústia


Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

.

E não se quer pensar!...e o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...

Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -

O brilho duma estrela, com o vento!...

.

E não se apaga, não...nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga...

Vem sempre perguntando: "O que te resta?...

.


Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!

.

Florbela Espanca

22/08/09


''Quero quando eu morra tuas mãos em meus olhos:

quero a luz, quero o trigo de tuas mãos amadas

passar uma vez mais sobre mim essa doçura:

sentir tua suavidade que mudou meu destino.

.


Quero que vivas enquanto adormecido,

espero que teus olhos sigam ouvindo o vento,

que sintas o perfume do mar que amamos juntos

e que sigas pisando a areia que pisamos.

.

Quero que o que amo siga vivo e

a ti amei e cantei sobre todas as coisas,

por isso segues florescendo, florida,

.

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,

para que passeie minha sombra por teus cabelos,

para que assim conheçam a razão do meu canto''

.

Pablo Neruda

21/08/09

NEURASTENIA

(Cattleya amethistoglossa )
...

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim Ave-Marias!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza...

.

O vento desgrenhado chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as asas pela Natureza...

.

Chuva...tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento...tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

.

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto que eu não posso !!...

...

Florbela Espanca

...

20/08/09

Amor

Quadro de : Sergio Fingermann
.
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel ou rigoroso.

.



Amor é brando, é doce, e é piedoso.

Quem o contrário diz não seja crido;

Seja por cego e apaixonado tido,

E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.



.

Se males faz Amor em mim se vêem;

Em mim mostrando todo o seu rigor,

Ao mundo quis mostrar quanto podia.



.

Mas todas suas iras são de Amor;

Todos os seus males são um bem,

Que eu por todo outro bem não trocaria.

.

Luís de Camões

19/08/09

A minha dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
.
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
.
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...
.
Florbela Espanca

18/08/09

(Florada no campo - Malu Delibo - Arte Naif )
.
.
Como nuvens pelo céu

Passam os sonhos por mim.

Nenhum dos sonhos é meu

Embora eu os sonhe assim.

.
São coisas no alto que são

Enquanto a vista as conhece,

Depois são sombras que vão

Pelo campo que arrefece.

.
Símbolos? Sonhos? Quem torna

Meu coração ao que foi?

Que dor de mim me transtorna?

Que coisa inútil me dói?

.
Fernando Pessoa, 17-6-1932

17/08/09


Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou...

Não sabem que passou, um dia, a Dor

À minha porta e, nesse dia, entrou.

.


E é desde então que eu sinto este pavor,

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

.


Sinto os passos de Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!

.


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,

A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!

.

Florbela Espanca

16/08/09

A minha vida é um barco abandonado

(A PONTE EM LANGLOIS - 1888, Van Gogh)



A minha vida é um barco abandonado

Infiel, no ermo porto, ao seu destino.

Por que não ergue ferro e segue o atino

De navegar, casado com o seu fado ?

.
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado

Torne seu vulto em velas; peregrino

Frescor de afastamento, no divino

Amplexo da manhã, puro e salgado.

.

Morto corpo da ação sem vontade

Que o viva, vulto estéril de viver,

Boiando à tona inútil da saudade.

.
Os limos esverdeiam tua quilha,

O vento embala-te sem te mover,

E é para além do mar a ansiada Ilha.
.

Fernando Pessoa


O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão...

.
São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor.
.

São como se a tristeza

Fosse árvore e, uma a uma,

Caíssem suas folhas

Entre o vestígio e a bruma.

.

Fernando Pessoa

15/08/09

Selo: Seu blog é mágico!


Recebi este selinho do Fabio Souza, do blog: http://fazinhu.blogspot.com/.

Regras:
1- Postar o selinho e as regras.
2- Responder às perguntas:
- Uma música mágica: Amor perfeito.
- Um filme mágico: A morada da sexta felicidade.
- Uma viagem mágica: a da minha mente (onde posso ser tudo e ter tudo que sonho).
- Um acessório de maquiagem básico: batom.
3-Indicar o selinho para 5 blogs mágicos.

Amor é fogo que arde sem se ver


Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;


É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

.

Luís de Camões

14/08/09

O Milagre (The Miracle, 1959, 121 min)







Na Espanha no início do séc. 19, Teresa (Carroll Baker) é uma noviça que desiste de se ordenar, para procurar por um oficial inglês, o capitão Michael Stuart (Roger Moore) a quem ela ama, e se torna uma cigana conhecida, cantora e cortesã, envolvendo-se também com o cigano Guiod (Vittorio Gasmann). Uma santa toma o seu lugar no convento. Dirigido por Irving Rapper.



*Assisti em excelente companhia, há algumas décadas.

SONETO XXVIII


SONETO XXVIII

As minhas cartas! Todas elas frio,

mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

da vida eis que retomo hora por hora.


Nesta queria ver-me — era no estio

—Como amiga a seu lado... Nesta implora

Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o

E chorei. Nesta diz quanto me adora.


Nesta confiou: sou teu, e empalidece

A tinta no papel, tanto o apertara

Ao meu peito que todo inda estremece!


Mas uma... Ó meu amor, o que me disse

Não digo. Que bem mal me aproveitara,

Se o o que então me disseste eu repetisse...
.
Elizabeth Barret Browning

Tradução: Manuel Bandeira

13/08/09

Sonetos Portugueses XIV (Elizabeth B . Browning)


Ama-me por amor do amor somente.

Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,

o seu sorriso, o modo de falar

honesto e brando. Amo-a porque se sente
.

minh’alma em comunhão constantemente

com a sua”. Por que pode mudar

isso tudo, em si mesmo, ao perpassar

do tempo, ou para ti unicamente.
.

Nem me ames pelo pranto que a bondade

de tuas mãos enxuga, pois se em mim

secar, por teu conforto, esta vontade
.
de chorar, teu amor pode ter fim!

Ama-me por amor do amor, e assim

me hás de querer por toda a eternidade.

.

Elizabeth Barrett Browning

Tradução: Manuel Bandeira

12/08/09

Maria das Quimeras

Os Girassóis, Vincent Van Gogh, 1888.

"Maria das Quimeras me chamou alguém...

Pelos castelos que eu ergui

P'las flores d'oiro e azul que a sol teci

Numa tela de sonho que estalou.

.

Maria das Quimeras me ficou;

Com elas na minh'alma adormeci.

Mas, quando despertei, nem uma vi

Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

.

Maria das Quimeras, que fim deste

Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,

Aos sonhos tresloucados que fizeste?

.

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...

Aonde estão os beijos que sonhaste,

Maria das Quimeras, sem quimeras?..."
.
Florbela Espanca

.

(Eu? sou a própria Maria das Quimeras, desiludida demais...)

05/08/09

Aonde


Aonde
.

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…
O eco ao pé de mim segreda… desgraçada…
E só a voz do eco, irônica, responde!
.
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
.
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde…
.
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…

.
Florbela Espanca.

04/08/09

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)


Na Nova Orleans de 1918, nasceu Benjamin Button (Brad Pitt, na fase adulta; Charles Henry Wyson, Chandler Canterbury e Spencer Daniels), com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

02/08/09

Melancolia


Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
.
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.
.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego
-Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
.
Fernando Pessoa, 3-9-1924
.

01/08/09

Flans de manga


Créditos: Editora Escala.

31/07/09

" Sobre a Esperança... "


" Sobre a Esperança... "
************************
Os olhos dele
dos olhos dela
um segundo que fosse, não se separavam,
como se quisessem acender as chamas que vacilavam
com a luz da própria Vida...
E a chama dos olhos dela, vacilantes, na noite
de vigília, sem dormida,
eram como as chamas no pavio das velas
quando o vento abre as janelas..."
.
J. G. de Araújo Jorge (" AMO ! " ,1ª edição, 1938 )
.
Quadro: A Estrela, Edgar Degas.

30/07/09

SAUDADE ESTÉRIL



SAUDADE ESTÉRIL
A saudade comum, essa consiste
em nos rememorar cada momento,
um quer que seja, cujo afastamento
pungindo-nos o peito, o torna triste.
.
Outra saudade, todavia, existe
que nos agita. Vem do firmamento
que nos clarões do luar, e o pensamento,
por mais firme e tenaz, lhe não resiste.
.
É a saudade de ignotas primaveras,
é a saudade de quadros incriados,
é a saudade de coisas nunca tidas.
.
É a saudade infecunda das esferas,
onde os astros rolaram, conglobados,
desde as fundas idades escondidas.
.
Narciso da Costa Araújo(1877/1944)

24/07/09

" A Vida "

I
"...Mudarás, todos mudam, e os espinhos
com surpresa verás por todo lado,
- são assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado...

Não hás de ser o eterno namorado
com as mãos e os lábios cheios de carinho,
- hoje, juntos os dois... tudo encantado!
- amanhã, tudo triste... os dois sozinhos!...

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido verás que não resistes
à inclemência do tempo úmido e frio!

Rolarás por escarpas e barrancos:
sobre o epitáfio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!"

I I
" . . .Tem sido assim e assim será... Mais tarde
o que hoje pensas chamarás: - quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
será a visão de extinta primavera...

Escondido à traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante já te espera!

E num requinte de perversidade
faz de cada ilusão, de cada sonho,
a ruína de uma dor... e uma saudade...

E se voltares, notarás então
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em vão sonhaste... e que viveste em vão!..."

I I I...
A vida é assim, segue e verás, - a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida...

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida...
- amanhã, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida...

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardança...

E enquanto as sombras chegam,
nós, ao vê-las,ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!..."

IV"
...A vida é assim, uma ânsia... feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
- apor esse bem que a tua mão semeia
espera o mal que ainda terás por paga!

A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
- a vida é assim... um canto de sereia
que à morte nos convida, e nos afaga...

O teu sonho melhor bem pouco dura,
e há sempre "um amanhã" cheio de dor
para "um hoje" nem sempre de ventura...

Toma entre as mãos o búzio da alegria
e surpreso verás que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!..."

V
Isso tudo nos dizem, - entretanto
nós dois seguimos de braços dados,
creio que se tu sabes que te adoro tanto
do que ouviste talvez não tens receio...

A vida, - é o nosso amor, o nosso encanto!
Nem a podemos mais parar no meio...
Chorar? - bem sei que choras, mas teu pranto
é a alegria que canta no teu seio...

O mundo é bom e nós o cremos, basta!
E se um amor tão grande nos enleva
e pela vida unidos nos arrasta,

- que eu te abrace e te apoies sempre em mim,
e desafiando o mundo envolto em treva
sigamos juntos para um mesmo fim!

Poema de J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou", Vol. I)

" Chuva"

(Effect de neige a Vetheuil, Claude Monet)



" Chuva"

Há tanto tempo que não chove assim!

O dia veste um céu triste e cinzento,
e ouço a chuva a cair como um lamento
no seu rumor monótono... sem fim...

Que estranha sensação de isolamento!
-Nem uma voz ouço ao redor de mim,
escuto apenas lá por fora, o vento
a desfolhar as flores no jardim...

Ninguém ao meu redor... ninguém me fala...
- e me deixo a ficar num tédio imenso,
na tóxica penumbra desta sala...

Que inquietude vazia há dentro de mim!
-Não sei se existo... não sei bem se penso...

Há tanto tempo não chove assim!

J.G. de Araújo Jorge ("Bazar de Ritmos", 1ª edição, 1935)

23/07/09

" Por Quê ? "

(Quadro: Casa Azul, de Frida Kahlo)
.
.


"Foi tudo uma surpresa, tudo de repente,


talvez nenhum de nós saiba explicar porque,


- você deixou de ser o que era antigamente


e o que era antigamente eu já não sou, se vê...





Eu era um seu amigo. E pra mim, você


por muito tempo foi a amiga e a confidente,


- deixei-a ler, assim como um cigano lê


nas mãos, toda a minha alma indiferentemente...





Por muito tempo, os dois, felizes, nos julgamos,


até que certo dia... (e eu não lhe disse nada


nem você disse nada) nós nos afastamos...





Hoje você me evita... Hoje evito a você...


E seguimos então, cada um por sua estrada


sem que nenhum de nós saiba explicar porque..."





J. G. de Araújo Jorge (" AMO ! ", 1a edição, 1938 )

22/07/09

Motivo


Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.


Cecília Meireles

21/07/09

Bilhete




Se tu me amas, ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados.

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres,enfim,

tem de ser bem devagarinho, Amada,

que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


Mario Quintana

20/07/09

Meu Destino.


Meu Destino.

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes
– íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos.
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Cora Coralina
Créditos da imagem: gettyimages.com

19/07/09

De Longe Te Hei-de Amar


De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

Cecília Meireles ("Canções")

18/07/09

A Cabana


A Cabana, de William P. Young



Adoro ler. Sou viciada em livros desde meus oito anos, quando li "Viagem ao centro da terra", do Julio Verne, mas confesso que minhas escolhas nunca são comerciais, nem os livros da moda ou os que aparecem no topo de qualquer lista. Sou eclética, curiosa; gosto dos clássicos, gosto do Érico Veríssimo, do John Steinbeck, do Romain Rolland, do Philip Yancey, sou fã nº 1 do C.S. Lewis; gosto de poetas como Araújo Jorge, Cora Coralina, Mario Quint ana , Drummond, Florbela Espanca, Elizabeth Browning Barret e Manuel Bandeira...

Mas, depois de ver este livro tanto tempo em primeiro lugar em vendas, aqui e nos EUA, resolvi dar uma "chance". Comprei e li-o em menos de dois dias.

É um livro instigante, que quebra ideias preconcebidas e, acho eu, no meu modesto modo de pensar, por isso tem suscitado tantas críticas, prós e contras. Acabei de ler, ainda estou "digerindo" algumas partes, procurando na Bíblia respaldo para algumas novas ideias que o autor lança sobre quem é Deus (não é um velho de barba branca!), a Trindade (conceito não muito explícito na Bíblia), a Graça, o Perdão, a Reconciliação (que não segue necessaramente o perdão) e "otras cositas mas"...

Espero, aos poucos, entender melhor o que o autor quis transmitir, separar o joio do trigo...

"A incredulidade de alguns ateus está mais próxima do amor de Deus do que a fé fácil daqueles que, sem nunca tê-lo experimentado, penduram uma placa com o seu nome como se fosse uma fantasia infantil ou uma projeção do eu’". Simone Weil

17/07/09

"Retrato"


"Retrato"


Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, tão simples,

tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face?"



Imagem: gettyimages.com

16/07/09

Rocambole: massa básica, de abacaxi e de chocolate




Claudia Comida e Bebida, Editora Abril.

15/07/09

" Noturno n.º 1 "


Pela madrugada o rádio põe em surdina
um fundo musical de filme
em meu desespero.
E a serenidade da noite, impassível,
com sua felicidade de luar e estrelas
me faz mal,parece afrontar meu desejo impossível
e ainda me torna mais triste, mais sentimental...
Você está em todas as formas do pensamento,
no pensamento que conforma todas as coisas...
Em vão tento fugir com a música, tento evadir-me com a noite,
em vão!
Você é a música, a noite, você é tudo!
É a própria forma e o conteúdo
Da minha solidão...
*
J.G. de Araújo Jorge (" A Sós..." ,1a ed. ,1958 )

14/07/09

Estrelas...

"Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh.
-
"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"
(Antoine de Saint-Exupèry, O Pequeno Príncipe)

13/07/09

"Nós"


"Nós
Tu és a força, eu a fragilidade.
Tu tens cérebro, e eu tenho coração...
A tua vida pautas na vontade,
e a minha vida toda é uma ilusão.
Tens a lei do trabalho e da igualdade,
exaltas tudo quanto é nobre e são,
e eu fiz a minha gloria da humildade
de viver sob o jugo dessa mão.
Tu tens o olhar dominador, profundo,
eu tenho o olhar mais triste que há no mundo,
cheio sempre das sombras do sol-por...
Eu e tu... Tão diversos! Mas, no entanto,
como é que nos queremos tanto e tanto
se eu sou tão fraca e tu tão forte, amor?”
*********************
GUSMÃO, Aracy Dantas de, in ARAÚJO JORGE, J. G. de. Os mais belos poemas que o amor inspirou. Poesia Brasileira. Vol. I. São Paulo: Theor S.A, 1963. 1ª edição.

Foto: Igreja de Brumado - BA.


12/07/09

" Borboletas "


Aos casais... - ante a espessa ramaria

verde, e rendada ao sol deste verão

- livres, felizes, cheias de alegria

as borboletas pelos céus se vão...


Despreocupadas... pela floração

se perdem, numa inquieta correria...

- Onde foram?... e em que lugar estão?

Já não se vê o olhar que as perseguia...


Mas... de repente, voltam pelo espaço,

- trêmulas e amorosas de cansaço,

asas roxas e azuis coo violetas...


E invejoso pensei, vendo-as pelo ar:

- quem me dera nascer, viver e amar,

como aqueles casais de borboletas !


J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"Vol. I - 1a edição 1965 )

11/07/09

" Sem ti "

(Spiderman)
...

Sem ti

em meu enervamento

sou como um artista sem instrumento

- um pianista sem piano

- um marinheiro sem mar

ou sem navio,

um alcoólatra sem bebida...

um corpo a teimar que ainda pode viver

assim vazio,
sem vida...

***
(Poema de J.G. de Araújo Jorge, do livro" A Sós...")

10/07/09

"ETERNO MOTIVO"



" Eterno Motivo "


Não me envergonho nunca de falar de amor !
............................................................................

Terá vergonha a fonte em murmúrios de festa,
águas claras rolando dentro da floresta de embalar a flor?
Terá vergonha o pássaro inquieto, sozinho,
de um dia cantar mais, (como todos cantamos...)
- e tecer com gravetos de palha
o seu ninho na altura dos ramos?
Terá vergonha a terra de acordar cheirosa
e inteirinha vibrar ao despontar do dia,
oferecendo ao sol sua boca macia naquela rosa?
Terá vergonha o mar de acariciar a areia
e oferecer-lhe conchas ao invés de anéis?
E dizer-lhe canções, em que todo se enleia aos seus pés?
Terá vergonha a noite, que de astros se encheu,
ao pôr o seu vestido imensamente
azul para um baile de luz,
de ostentar o presente que o tempo lhe deu
o "pendentif" em cruz do Cruzeiro do Sul?
...............................................................................
Por que razão, portanto,
- Ele, o predestinado, que nasceu
para amar com grandeza e esplendor
e trouxe um coração de poeta enamorado
há de sentir pudor?
Eu, por mim, sou feliz, porque amo e sou amado!
Nem me envergonho nunca de falar de amor!



Poema de J. G. de Araujo Jorge.

09/07/09

Pavê de Chocolate Branco


Créditos: Revista Ana Maria, Editora Abril.

08/07/09

Mandela – A Luta pela Liberdade (Goodbye Bafana, 2008)

A história de Nelson Mandela (Dennis Haybert) contada do ponto de vista de um guarda branco e racista, James Gregory (Joseph Fiennes) e sua esposa Gloria (Diane Kruger), na África do Sul do apartheid. Gregory foi designado para vigiar Mandela por falar Xhosa, agindo, assim, como espião do governo, mas depois de 20 anos guardando a cela de Mandela, sua vida é alterada. Dirigido pelo cineasta dinamarquês Billy August, foi baseado no livro de James Gregory.
Minha nota: ****

Pavê de Cookies


Créditos: Revista Ana Maria, Editora Abril.

07/07/09

Pavê de Nutella

Créditos: Revista Ana Maria, Editora Abril.

06/07/09

Leões e Cordeiros (Lions for Lambs , EUA, 2007)


O carismático senador Jasper Irving (Tom Cruise) pretende lançar sua nova "estratégia completa" para a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão e, para divulgá-la, precisa convencer a experiente jornalista Janine Roth (Meryl Streep).
Ao mesmo tempo, o dr. Stephen Malley (Robert Redford), um professor idealista da Califórnia, tenta convencer Todd (Andrew Garfield), um de seus alunos mais promissores, a mudar o curso de sua vida. Enquanto isso, Ernest (Michael Peña) e Arian (Derek Luke), ex-alunos do professor, são soldados que estão lutando nas montanhas geladas do Afeganistão, e que se alistaram no exército americano em busca de um sentido para suas vidas. Direção de Robert Redford. Censura: 12 anos.
Minha nota: ****

05/07/09

" Tuas Mãos "




Mãos frágeis, mãos divinas, mãos pequenas,

leves, espirituais e perfumadas,

cujas unhas são pérolas morenas

nos escrínios dos dedos engastadas.




Mãos que são duas sílabas amenas

no poema dos teus braços enfeixadas;

que, estando acima das visões terrenas,

jamais serão por outras igualadas.




Mãos que ostentam, nas formas delicadas

todo o enc anto das noites enluaradas

na linda terra que te viu nascer...




E para eu ser feliz basta somentes

beijar t eus dedos demoradamente

e sob o afago dessas mãos morrer!

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Abílio de Carvalho (Vitória, ES - 22/02/1916/Rio de Janeiro - 08/10/1977).

04/07/09



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade
Corpo - Novos peomas, 4ª ed., p. 25